Representatividade é uma palavra importantíssima e constante no cenário das discussões da comunidade LGBTQIA+. A comunidade busca essa representação como forma de conscientizar e chamar a atenção do restante da população para a causa.

No entanto, a pessoa LGBTQIA+ tem sido, por anos, ridicularizada e estereotipada na televisão: alguns programas usam da representatividade como desculpa para trazer o alivio cômico para seus shows televisivos sem se importar de fato com a luta.

Gerar lucro. O famoso Pink Money é muito mais importante do que dar voz a uma causa tão necessária, e é por isso que temos visto em muitos lugares a pessoa LGBTQIA+ como figuras representativas no mercado televisivo. No entanto, na grande maioria das vezes, a representação não agrega nenhum valor para a comunidade.

Desde alguns programas e novelas da rede Globo, até séries mais antigas como a aclamada “Friends”, carregam uma imagem errada e cheia de estereótipos para o telespectador. A sociedade e, muitas vezes, pessoas da própria comunidade acreditam que, para serem aceitos, têm que corresponder àquele tipo de imagem tipificada.

Segundo a criadora do Instagram “Eu Gay Blog”, com mais de 10 mil seguidores, Thays Alves: “É uma pena que esse tipo de ‘representatividade’ exista, porque passa para o telespectador, para a massa, uma imagem irreal da pessoa LGBTQIA+, e é uma coisa que coopera muito pra instaurar o preconceito na sociedade. Não é algo que ajuda a gente, muito pelo contrário, só faz a gente ter que lutar ainda mais pra desconstruir alguns pensamentos impostos por conta desses tipos de personagens”.

O cenário televisivo tende a caracterizar o gay como carinhoso, afeminado e por vezes escandaloso. Sempre sendo o personagem secundário e melhor amigo da personagem principal, as novelas brasileiras caracterizam o gay como fofoqueiro e submisso, como é o caso do personagem CRÔ, interpretado por Marcelo Cerrado na novela Fina Estampa.

Na televisão brasileira o personagem gay sempre foi alvo de muitos estereótipos, mas o personagem de Marcelo se destacou por carregar muitos deles e por ser um personagem extremamente cômico, aceitando humilhações constantes e comentários extremamente ofensivos e homofóbicos.

No entanto, no cenário brasileiro a cena vem mudando, mas o processo é lento e gradual. Recentemente, a novela “A Força do Querer”, passada em horário nobre e que está sendo reprisada pela rede Globo, apresentou a personagem Ivana, uma mulher que não se identifica em seu próprio corpo. A narrativa acompanhou a trajetória de Ivana até a sua descoberta e aceitação como homem trans, e o personagem, então, passou a ser chamado pelo nome de Ivan, trazendo discussões muito necessárias para a sociedade. De acordo com Thays, “É o tipo de representatividade que ajuda na autoaceitação de várias pessoas”.

No cenário internacional, a situação não é diferente. Em 1971, a televisão americana teve seu primeiro casal assumidamente gay na série “All in the family”. É claro que após esse marco, as coisas não mudaram magicamente, um longo caminho foi e continua sendo traçado ate hoje na busca por representatividade.

Séries como POSE, QUEER EYE, ORANGE IS THE NEW BLACK e SEX EDUCATION colocam a comunidade como ponto central das narrativas e dão voz e esperança para todos que assistem. Esse é o tipo de representatividade que deve ser vista na televisão mundial.

Essas séries abordam assuntos intensos, importantes e extremamente necessários para se colocar na mesa para debate. São nessas representações que a sociedade pode ter acesso ao sofrimento, às lutas e alegrias de se fazer parte da comunidade LGBTQIA+. São programas assim, que trazem questões a serem discutidas, muitas vezes de maneira cômica, mas o humor é utilizado de forma inteligente, sem ferir os direitos e a moral de ninguém.

A ganhadora da décima temporada de RuPaul Drag Race, Aquaria, revelou que assistia ao programa quando ainda era pequena, e isso trouxe força e motivação. “Reconhecer em um personagem da mídia é ter a certeza de que você não é único no mundo, que existem pessoas felizes sendo quem você gostaria de ser. Tenho para mim que é o primeiro passo de muita gente, eu observo bastante isso aqui, muitas pessoas se aceitam depois de um personagem marcante”, afirma Thays.

Isso é a verdadeira representatividade. É olhar para a televisão e se enxergar de fato nos personagens, nas suas angustias e sofrimentos, nas situações cotidianas. É ser colocado como personagem central da história. Para a criadora do blog, é “a melhor forma de a própria comunidade se reconhecer e se orgulhar de ser quem é”.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui