Entrevista: A saúde mental na mídia e seu reflexo na sociedade

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Saúde mental
Saúde mental (Imagem:Sylverarts/iStock; Instagram)

Com a popularização de serviços de streaming como Netflix e Amazon Prime, houve um aumento colossal na produção de séries e filmes. Para atender diversos públicos, os conteúdos apresentam temas de várias naturezas. Entre elas, a saúde mental.

A série “Os 13 Porquês” foi alvo de polêmicas desde a sua estreia. Representando temas como bullying, abuso sexual e suicídio, foi acusada de tratar tais temas com descaso e irresponsabilidade. Desde então, a cena de suicídio foi retirada da série, e antes de cada episódio, os atores avisam sobre os temas tratados e possíveis “gatilhos”, desaconselhando assistir se a pessoa apresenta algum distúrbio.

Netflix
Netflix (Foto: Reprodução)

Uma coisa é inegável: a polêmica da série fez com que assuntos como depressão, suicídio e abuso sexual virassem tema em reportagens, telejornais e publicações em redes sociais. Antes considerado tabu, pessoas começaram a escrever relatos sobre como é viver com depressão, ansiedade e outros transtornos mentais. Isso refletiu na própria mídia, que aumentou a representação da saúde mental de personagens.

Para a Netflix, que sempre produziu séries e filmes com esses temas (Bojack Horseman, Jessica Jones, The Fundamentals of Caring), a polêmica resultou em aumento da audiência, e a possibilidade de continuar a tratar sobre saúde mental de diversas formas. Recentemente, lançou a série “I’m not okay with this” e o filme “Por lugares incríveis”, que falam sobre depressão, ansiedade e suicídio de uma forma mais sensível, como explicado por Nicolaos Garófalo (Omelete, 2020).

De acordo com um estudo sobre “Condições de Saúde Mental em Filme & Televisão” feito pela Iniciativa de Inclusão Annenberg da USC e Fundação Americana de Prevenção ao Suicídio (2019), 7% dos personagens de séries de TV (entre 2016 e 2017) apresentaram algum tipo de transtorno. Uma média superior a encontrada em filmes (1.7%) no mesmo período, mas inferior à estimativa da população estadunidense (20%).

Embora a discussão tenha aumentado bastante, nota-se que os personagens com transtornos mentais não representam a população como um todo. O estudo da USC aponta que, daqueles 7% de personagens, apenas 31% não eram brancos, e 9.3% eram gays, lésbicas ou bissexuais. Os transtornos apresentados de forma mais frequente são: vícios (álcool, drogas, apostas), ansiedade/stress pós-traumático, transtornos de humor (depressão, bipolaridade) e suicídio.

O site LGBT+ entrou em contato com Bruno Branquinho, psiquiatra, psicanalista e colunista do blog Saúde LGBT+ da revista Carta Capital, para tirar dúvidas sobre o tema. Confira:

Bruno Branquinho
Bruno Branquinho (Foto: Reprodução/Instagram)

Houve um aumento na discussão sobre a saúde mental em séries de TV e filmes. Você acha que essas representações são feitas de forma realista?

Acho que não dá para responder essa pergunta de uma forma geral. Há filmes e séries que representam pessoas com transtornos mentais de forma adequada, e também os que o fazem de forma inadequada.

É possível notar o aumento da procura de tratamento por causa dessa discussão?

Apesar de não serem muitos, no meu consultório já houve sim pacientes que procuraram atendimento por terem se identificado com algum personagem visto na TV ou no cinema que possuía um transtorno mental, levando-os a se questionar e a aceitar procurar a ajuda de um profissional. Acredito que isso possa acontecer com muitas pessoas.

O aumento da representação significa que há uma diminuição no estigma?

Acho que as séries e os filmes fazem sucesso justamente porque as pessoas se sentem representados, se identificam de alguma forma com os personagens retratados. E por muito tempo os personagens principais não tinham tanta variedade de características e por isso não representavam a todos: eram brancos, heterossexuais, ricos, sem doenças etc.

Isso vem mudando com o tempo e com a maior representatividade da diversidade nesses programas. Então, acredito que, quando você inclui uma doença mental na discussão desses personagens, desde que seja feito de forma séria e adequada, com ajuda de profissionais qualificados, isso pode sim diminuir o preconceito e o estigma relacionado à saúde mental. As pessoas que passam por esses problemas podem se sentir menos mal e mais à vontade para reconhecer seu sofrimento e procurar ajuda de um profissional e o restante das pessoas pode começar a entender que o fato de ter um transtorno mental, seja ele qual for, não faz daquela pessoa “louca” ou “sem cura”.

Existem atitudes de personagens que podem ser prejudiciais para pessoas com esses distúrbios?

De uma forma geral, qualquer representação de um personagem com algum transtorno mental deve ser embasado na realidade, sem caricaturas ou estereótipos, por isso sua realização deve ser feita com ajuda e consultoria de profissionais de saúde mental. Sendo feito dessa forma, acredito haver uma minimização dos potenciais efeitos negativos sobre as pessoas com algum distúrbio.

Qual a sua opinião sobre a representação de suicídio na mídia?

Acredito que, como com todos os assuntos polêmicos, há abordagens cuidadosas e necessárias e há outras que são apenas sensacionalistas e danosas.

(Sobre a série “Os 13 Porquês”) A série afetou de forma significativa a discussão sobre saúde mental em redes sociais. Isso contribui para uma maior conscientização ou pode ser visto apenas como um gatilho?

Essa é uma opinião minha e pode não ser a de outros profissionais de saúde. Eu acredito que o suicídio é um assunto de extrema importância, um grave problema de saúde pública, especialmente entre os jovens. Estatísticas mostram que o suicídio é a terceira maior causa de mortes entre jovens americanos de 10 a 24 anos. Sendo um fenômeno de tal magnitude, acho que sim, ele precisa ser retratado e incluído em reportagens, séries e filmes, de forma responsável e criteriosa, é claro, pois isso põe as pessoas em contato com essa realidade e as levam a refletir sobre o problema e possíveis soluções, assim como conscientiza sobre as consequências que um transtorno mental não tratado pode causar às pessoas.

Acredito que é um problema social e que apenas não retratá-lo na mídia, para evitar que sejam “gatilhos”, é tapar o sol com a peneira. Talvez precisemos discutir a situação em que esses jovens se encontram antes desse “gatilho” e o porquê de considerarem o suicídio como solução. Outra discussão também é a que tipo de programas e filmes os jovens estão expostos de maneira precoce. Talvez “Os 13 Porquês” seja de fato algo que não seja adequado para um jovem de 14 anos, por exemplo.

Qual série/filme representa de uma forma realista personagens com depressão/ansiedade?

Acho que filmes que representem adequadamente a depressão eu citaria Melancolia, de Lars Von Trier, e Divertidamente, uma animação da Pixar. Esse último é uma escolha mais lúdica, mas eu adoro, mostra de uma maneira simples e divertida como nossa mente funciona. Sobre séries, comecei a assistir uma agora do Netflix que se chama “I´m Not Okay with This” e tenho gostado bastante.

Divertidamente
Divertidamente (Foto: Divulgação)

A LGBTfobia pode gerar casos de depressão e ansiedade?

É sabido por estudos das últimas décadas que a população LGBT apresenta maior prevalência de transtornos mentais em relação à população cis e heterossexual. A principal hipótese da comunidade científica para esse fato é o modelo de “Estresse de Minoria”. Essa hipótese supõe que o estresse crônico sofrido pelos LGBT (uma vida inteira de violências, preconceito e estigma) seria responsável por maior prevalência de transtornos mentais nessa população.

Destacar o papel da LGBTfobia pode fazer com que aumente a conscientização?

Com certeza. Fica muito mais difícil de mudar algo de que não seja falado, que seja invisível. Quanto mais a LGBTfobia for exposta, mais fácil que as pessoas reflitam sobre o tema e possam tomar atitudes para diminuir com o preconceito contra a população LGBT.

Em caso de crise, entre em contato com profissionais (psicólogos e psiquiatras) ou o Centro de Valorização da Vida – CVV (telefone – 188, e-mail, chat ou Skype no site.

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