Colaboração por:  João Zanetti @jhzntt

A realidade trans no Brasil tem conquistado cada vez mais espaço nas pautas político-sociais, avançando na busca por cidadania, direitos igualitários e representatividade. A expressão da cultura trans está presente nos mais diversos âmbitos e se mostra de várias formas. Pensando nisso, investigamos o cenário e quem são as pessoas que fazem parte da comunidade T, em Cascavel. Por meio de 6 depoimentos, descobrimos suas experiências e histórias de vida, a partir de diferentes locais de fala. A essência do projeto é expressar a natureza humana, a vulnerabilidade, a beleza, o humor e a coragem de dar os primeiros passos para viver sua verdade ou talvez que algum parente veja o trabalho e aprenda mais e se sinta mais confortável com o processo.

Bandeira de visibilidade trans

Theo Costa:

Theo é fotografo. Capta e eterniza a beleza das outras pessoas. E mesmo com essa sensibilidade, lutou para conseguir enxergar a verdadeira essência dentro de si. Ainda está no início da longa jornada chamada transição, mas já nota o quanto evoluiu como pessoa trans para se tornar quem ele realmente é.

Theo Costa, 23 anos, fotógrafo — Homem trans.

Historia:

Eu me entendi homem trans há alguns meses, depois disso, percebi que certas atitudes que eu tinha na infância eram diferentes. Eu me sentia diferente e só acabei percebendo isso agora, adulto. Eu andava sem camisa dentro de casa, então qualquer pessoa que entrava me via assim. Meus familiares, minha avó principalmente, sempre chamavam minha atenção para colocar uma roupa, me diziam que era errado e eu me perguntava porque era errado, porque meu irmão vivia sem camiseta e eu não podia. Na minha infância eu já fazia esses questionamentos. Porque eu tinha que ter só amizades femininas e não masculinas. Em 2017 eu comecei a questionar meu corpo, sobre meus seios, partes vistas como femininas, então acabei percebendo que não estava no corpo certo. Mas na época eu levei como baixa auto estima. Eu estava de mal com meu corpo mas isso acabou se esquecendo, procurei me distrair com outras coisas que me fizessem bem.

Então comecei namorar e esse pensamento sumiu por um tempo, mas quando terminamos eles acabaram voltando, porém, ainda enfrentei como baixa auto estima. Só a partir daquela novela da Globo, que tinha um personagem que era homem trans, o Ivan, peguei o ponto e comecei a me questionar mais e mais. Pesquisei canais no youtube de homens trans, e aí eu me identifiquei baseado em tudo aquilo que eu vivi na infância. Esse ano eu refleti sobre meu corpo e vi que não era baixa auto estima mas que eu era um homem trans. Desde então eu venho trabalhando na minha aceitação. Eu ainda me pego perguntando se eu estou errado, mas aos poucos eu vou construindo isso e me entendendo cada vez mais como eu sou, como eu nasci e que isso é lindo e que eu preciso me aceitar, me olhar no espelho e gostar do que eu vejo.

Autoaceitação:

Ter me entendido homem trans foi muito libertador. Eu passei a vida inteira me perguntando porque me sentia errado, porque não podia fazer coisas que são socialmente masculinas. A sociedade foi dividida em feminino e masculino, então se você se sente em um corpo errado, basicamente, você acha que tudo que faz é errado pois aquilo pertence a outro gênero*. Então foi bem libertador me entender como homem trans e poder ser quem eu realmente sou, tanto para os meus amigos quanto para os familiares.

| GÊNERO NÃO SE ESTIPULA ATRAVÉS DOS ÓRGÃOS SEXUAIS

Cascavel:

Em relação ao preconceito em Cascavel, por mais que muito mascarado, a gente percebe. Nós LGBTs sabemos quando somos vítimas de preconceito, seja por um olhar torto, ou uma frase dita com intenção de ofender. Eu não posso dizer que sofro muito preconceito direto, mas esse preconceito velado, que não está na cara, a gente, que é LGBT, percebe. O único lugar que eu me sinto 100% confortável é a Hell, que é uma boate LGBT. Lá eu frequento o banheiro masculino, que é uma coisa que eu não faço em outros lugares. No shopping eu não me sinto a vontade de ir ao banheiro masculino, eu ainda uso o feminino, porque o medo de olhares tortos ou comentários ofensivos está sempre comigo. Na Hell eu me sinto confortável para ser eu mesmo. Eu não costumo sair para pubs, lugares que tem muita gente, prefiro ficar na minha bolha social de amigos para evitar momentos de constrangimento.

Raiza Lopes:

Raiza é uma profissional de renome, que batalhou para conquistar um espaço no meio em que atua. Hoje, ela exalta talento e responsabilidade no que faz, mostrando que ralar para libertar a verdadeira identidade e nunca abaixar a cabeça para os desafios, nos dão força e demonstram o poder de nossos sonhos.

Raiza Lopes, 27 anos, cabeleireira, mulher trans

História:

Eu me assumi com 13 anos e quanto a minha transformação, eu não tinha nenhum conhecimento, nem informação e muito menos uma amiga trans, que pudesse me ajudar. Eu sabia que não me identificava com aquele corpo que eu via no espelho, e com 13 anos, esse corpo começou a se modificar, foi difícil. Uma criança nessa idade, não tem tantos traços femininos ou masculinos, é apenas uma criança, a partir daí, meu rosto e o meu corpo estavam se transformando tanto, que eu não me enxergava mais. Nessa fase eu falei pra minha mãe “eu não sou menino, eu não me entendo como menino mãe”, e ela ficou na dúvida sobre o que era aquilo, me questionando se a questão era sobre gostar de meninos, expliquei que não era aquilo.

Não se tratava de sentimentos até aquele momento, era a minha identidade. Eu só me via como uma menina. Ela começou a tentar entender qual era a minha sexualidade, e eu beijei meninas e meninos pra saber como era, mas até os meus 17 anos, eu não tinha relações sexuais. Eu só queria ser uma menina, independente de com quem eu fosse me relacionar.

Na época, não fiquei me cobrando isso, tanto que até hoje eu não me cobro, são duas coisas diferentes. Se eu tiver que me relacionar com meninas ou com meninos, vai partir de mim. Eu não ficava questionando a minha orientação sexual, o que eu realmente precisava entender era que quando eu me olhava no espelho e me via um menino, eu não me enxergava.

Eu terminei a escola na força. Não foi nada fácil, porque eu fui uma criança transsexual. Eu ficava na biblioteca enquanto o pessoal estava no recreio, isso pra mim foi bem complicado, porque eu queria evitar de brigar, mas eu não ia me calar. Eu concluí no pau bravo… e pelo fato de eu não abaixar a cabeça, me xingavam, me chamavam pelo nome antigo e faziam muitas ameaçada. No começo, eu queria abandonar, mas eu não pude fazer isso. Eu concluí o ensino médio e comecei a carreira de cabeleireira no que eu queria. Gostaria de ter feito moda, mas segui no salão, até porque meu pai era barbeiro e eu sempre acompanhei ele. Eu estou muito mais focada na minha profissão agora.

Aceitação:

Vim de uma família evangélica, cantava na igreja, então no começo foi bem complicado, porque existem outras crenças por trás da sexualidade na religião. Isso também causou certa resistência à minha família, mas eu não tenho do que reclamar. Eles sempre me apoiaram ao longo do meu crescimento, mas para me proteger, minha mãe acabou me privando de muita coisa, sofri bastante com por isso. Eu não saia de casa sozinha por exemplo, saí pela primeira vez com 15 anos, que foi no meu primeiro emprego, e ela ainda foi junto comigo. Não sabia o caminho de casa.

Ela tinha muito medo que eu sofresse discriminação. Talvez isso, me fez sair de casa muito cedo, precisava encarar a vida de verdade. Com 18 anos, eu fui pra Curitiba morar com o meu irmão e foi aí que eu realmente entrei em contato com a malícia da vida. Nessa fase, eu conheci outras transsexuais, e de quebra, por medo de não conseguir emprego, ou dinheiro para conquistar as coisas que eu queria, comecei a me prostituir.

Luta:

| CONHECER ESSA REALIDADE FOI UMA COISA QUE EU NUNCA IMAGINEI E NINGUÉM NEM SABIA COMO ESTAVA SENDO PRA MIM, EU FUI NA LOUCA. QUANDO EU CONHECI PESSOAS TRANS QUE HAVIAM MODIFICADO SEUS CORPOS, AQUILO ME PARECEU MUITO FÁCIL E POR ISSO, EU RESOLVI QUE QUERIA ENTRAR NESSE MEIO TAMBÉM. NUNCA FIZ FORÇADA, MAS FUI NA ONDA. NESSE MOMENTO, É QUE VEIO A MAIOR CAGADA DA MINHA VIDA: O SILICONE INDUSTRIAL*.

* DE ACORDO COM O MINISTÉRIO DA SAÚDE, O SILICONE INDUSTRIAL, SE INJETADO NO ORGANISMO PODE GERAR DIVERSAS ANOMALIAS, SEJA NA HORA DA APLICAÇÃO OU COM O PASSAR DOS ANOS, COMO DEFORMAÇÕES, DORES, DIFICULDADES PARA CAMINHAR, INFECÇÃO GENERALIZADA, EMBOLIA PULMONAR E, ATÉ MESMO, A MORTE

QUANDO EU ENTREI EM CONTATO COM ELE, EU QUASE MORRI, NO COMEÇO PENSEI QUE DARIA TUDO CERTO, MAS DEPOIS DE UM ANO MEU ORGANISMO REJEITOU, TANTO QUE RECENTEMENTE, EU PASSEI POR UMA TERCEIRA CIRURGIA PRA RETIRAR PARTE DELE. É UMA REALIDADE BEM PRESENTE DAS TRANS, QUE DEVERIA SER MAIS COMENTADA, ATÉ PORQUE HOJE EM DIA, NÓS TEMOS VÁRIAS INFORMAÇÕES, EU COM 18 ANOS, NÃO TINHA NENHUMA. A PROSTITUIÇÃO A PARTIR DAÍ JÁ NÃO FAZIA MAIS PARTE DA MINHA VIDA E EU NÃO TINHA DINHEIRO, NEM CONDIÇÕES, NEM NADA. EU ESTAVA NO COMEÇO DAQUELA CARREIRA, ENTÃO A ABANDONEI PRA NÃO SEGUIR UMA VIDA QUE NÃO ERA MINHA.

Tratamento Hormonal:

“A transsexual não tem a oportunidade de transicionar em paz”. Quando eu comecei a transacionar na época do colégio por exemplo, eu não tive o apoio de ninguém, eu tomei hormônio por conta própria. Tem essa fase de que você não quer sair de casa, porque você se olha no espelho e não vê nenhum dos dois gêneros. Hoje, lidar com as minhas clientes que eu ainda não conheço, ou por exemplo com senhoras de 70 anos, é muito fácil, porque eu tenho confiança no espelho, olho pra mim e vejo que eu me tornei o que eu queria, mas há 10 anos, isso era muito difícil para mim.

Eu fiz tratamento hormonal particular dos 13 aos 25 anos. Com o tempo nós vamos ficando meio pilhadas, dou uma pausa de seis meses e volto o tratamento. Existem muitas coisas positivas com o uso de hormônios (você consegue ter traços delicados e femininos como você quer), mas o stress é muito grande. Eu brinco com as minhas amigas *cis que é como se eu estivesse de “tpm” 24 horas por dia.

| *CIS: INDIVÍDUO QUE SE IDENTIFICA, EM TODOS OS ASPECTOS, COM O SEU “GÊNERO DE NASCENÇA”

Preconceito:

Eu já passei por experiências de ter que ser atendida em uma UPA, e a secretaria me chamou pelo nome de batismo. Naquele momento, eu não levantei, e eu comecei a chorar desesperada, porque por mais que eu estivesse passando mal, eu não ia ceder. Aquilo estava sendo muito pesado pra mim. E é só um nome as pessoas pensam, mas pra mim era se como eu estivesse abaixando a cabeça. E eu não nasci para abaixar a cabeça.

Cascavel:

Eu não sou muito de sair, não frequento muitas baladas, mas confesso que aqui, eu passo na rua e as pessoas sempre me olham, acho isso o máximo, porque eu me destaco. O povo cuida sim um da vida um do outro aqui, mas eu gosto disso, até por ser uma cultura de interior. Eu nunca quis enganar ninguém, acho que quando não temos orgulho de nos assumir, apagamos a nossa história e eu não quero apagá- -la. Eu fui fulano de tal, eu batalhei muito pra ser a Raiza, mulher trans, e isso é algo que eu nunca vou apagar.

Liz Macedo:

Liz personifica a militância. Mulher orgulhosa de quem é, se impõe pra reivindicar o que lhe é de direito, mas sempre reconhecendo seu local de fala. Suas pautas não são sua única preocupação, ela entende seus privilégios dentro do contexto trans e luta pela causa de todas as minorias.

História:

Eu percebi que era diferente quando comecei a ter contato com outras crianças, percebi que eu não era igual aos meninos mas sim as meninas. Nas brincadeiras, ou nas coisas que os meninos falavam, eu me sentia totalmente deslocada, estranha, preferia estar com as meninas. Eu me identificava com elas, com as roupas, o cabelo, desde criança. Eu fui criada pelos meus avós, então não tinha contato com muitas crianças, nem noção do que era de menino ou menina, pra mim era tudo coisa de criança. Conforme eu fui conhecendo outras crianças, fui tendo noção do que era ser menino e com isso entendi que não era assim que eu me identificava.

Autoaceitação:

É muito bom ser quem você realmente é, quem você sempre teve vontade de ser, se sentir confortável com seu próprio corpo. Isso tudo é algo que a maioria das pessoas (cis) sentem, e as trans não. Você não se sente bem com a própria forma física, e não é uma questão de estar gorda ou magra, é uma questão de ter atributos físicos que você não gosta. Quando você consegue mudar isso, fazer uso da sua própria identificação pessoal que define seu gênero, é muito bom.

Família e amigos:

A aceitação da minha família foi muito boa, principalmente por parte dos meus avós. Eu nunca tive muitos amigos, porque não me encaixava muito bem, não conseguia me enturmar justamente por causa desse problema que eu tinha. Fazer amigos, para mim, era uma barreira muito grande. Os pouquíssimos que eu tinha também me aceitaram super bem, nunca tiveram problemas com isso. Na verdade quem não me aceitou foram pessoas que mal me conheciam.

Liz Macedo, 25 anos, cozinheira — Mulher trans

Cascavel:

Não só em Cascavel, mas em todos os lugares, ainda existe sim muito preconceito. Aqui, por ser uma cidade pequena, tem bastante preconceito e não só com a comunidade trans, mas com a comunidade LGBT no geral. É uma questão cultural. Eu acho que vai demorar muito para isso mudar. Acho que tem a ver com o cultural, pela imagem das pessoas trans e travestis estar sempre ligada a prostituição.

O Brasil tem muita discriminação com o conceito. Se eu dissesse que Cascavel não tem lugares que me fazem sentir à vontade, eu estaria mentindo. Só que eu me encaixo em um padrão de muita passabilidade, as pessoas não vêem que eu sou trans a menos que eu diga. Então eu não tenho esse problema, mas não significa que ele não exista.

Pessoas que tem características que as identifiquem como trans logo de cara, vão passar por situações de preconceito em muitos lugares, inclusive em lugares que se dizem abertos para a comunidade LGBT. O que eu mudaria na cidade é que eu acho ela pouco inclusiva.

Você não vê um gay afeminado atendendo em uma lanchonete. É sempre o mesmo padrão, meninas e meninos brancos, sempre muito parecidos. Faltam negros, cadeirantes. Não é algo que afeta só a comunidade LGBT, mas sim as minorias sociais em geral. Você vai ao teatro e tem só um tipo de pessoa assistindo, não é algo voltado a toda a população. Você vê que a cidade é exclusiva. Muitas vezes pessoas cis são deixadas de lado por não seguirem o padrão. Você vê isso na cor das pessoas que trabalham no shopping, pela falta de pessoas deficientes e LGBTs ocupando as vagas de emprego.

Você só vê essas pessoas em lugares específicos. E isso só alimenta ainda mais a exclusão e faz com que a gente permaneça cada vez mais guetado, às margens.

Átila Ferrari:

Átila, estudante do terceiro ano do ensino médio, apaixonado por literatura vem demonstrando o quanto as escolhas encorajam a vida. Se descobriu como não-binário na metade do ao passado, e já colocou a cara no sol, o que para ele foi uma conquista muito grande. Poder fazer aquilo que quer e sentir-se quem ele realmente é, tem um significado incrível em sua trajetória, mas nem sempre foi assim.

Átila Ferrari, 17 anos, estudante, não binário.

Historia:

Primeiro eu soube que não era uma menina, isso nunca foi uma dúvida, sabe? Sempre tive isso bem claro na minha mente, mas eu fui descobrir só mais tarde que eu também não gostava de ser um menino. Cheguei a pensar que eu era uma pessoa de gênero fluido, e depois de muito choro e terapia eu descobri que estava tudo bem não se sentir confortável sendo obrigatoriamente algum dos dois.

Antes de me descobrir como não binário, eu comecei a desconfiar que eu não gostava de ter uma aparência feminina, ou expressar feminilidade. Percebia que havia coisas no meu corpo que não me faziam bem, que eu tinha vontade de esconder. Tanto que questionava várias vezes, ‘por que comigo? Por que eu não podia ser normal’?

Eu eu não sabia o que, ou quem eu era. Nunca fui de me sentir encaixado nas coisas. Suspeitava sobre a minha identidade de gênero, mas não falava disso, achava errado não me sentir confortável com o corpo que eu tinha, até porque eu não podia fazer nada para mudá-lo. Na época, eu não entendia isso, eu pensava ‘eu tenho um útero, eu preciso obrigatoriamente ser uma mulher’. Hoje, eu compreendo que nasci com o meu corpo e vou morrer com ele, tudo que eu posso fazer é aceitá-lo e gostar dele da melhor forma.

Aceitação:

Para os meus amigos, contei bem cedo, sobre ser trans e foi muito legal saber que todo mundo me aceitou e me apoiou desde o comecinho. Já a minha família, encarou como se tudo isso fosse loucura, no começo. Eles acham até hoje que que eu sou meio doido, mas quem realmente sempre me aceitou e me ajudou em tudo foi a minha mãe.

Por ela ser bissexual, conseguiu ter mais noção sobre pessoas transgêneros e de início, ela achou que eu era um homem trans, assim para ela estava de boa, só que quando ela descobriu que eu era não binário, ela ficou confusa. Agora, a minha mãe tem até uma bandeira trans no quarto dela. Tá sendo uma jornada de aprendizado pra mim e pra eles.

Preconceito:

As vezes, quando eu saio com uns amigos e falo de mim mesmo no masculino, sempre percebo alguém olhando estranho… no ônibus então nem se fala, sempre tem alguma senhora de idade me olhando como se eu fosse uma aberração.

Cascavel:

Tem muito lugar legal, desconstruído, que pouco se importa com o seu gênero aqui em Cascavel, mas apesar disso, a hétero e a cisnormatividade estão muito enraizadas. Pra mim, a maioria deles ainda não entende como é grave o comportamento transfóbico que a gente ainda vivencia, que pode ser identificado quando a galera olha torto, ou faz prejulgamentos.

Na minha opinião, alguns ambientes deveriam se importar menos com qual banheiro eu vou usar, ou qual o meu nome de registro por exemplo. Acho inclusive, que a gente deveria pensar que não é um nome, aspecto físico, voz ou aparência que vai dizer quem eu realmente sou ou com o que me identifico. Mesmo sendo diferente, eu ainda sou uma pessoa e mereço respeito como todas as outras pessoas cis.

Natanael Victor:

Em 2018, Natanael veio de Brasília para Cascavel, em busca melhores oportunidades de vida. Em sua trajetória enquanto homem trans, passou por poucas e boas. Sob pressão familiar, teve que sair de casa, sofreu transfobia, e a aceitação pessoal também não foi nada fácil, tanto que a convivência com a depressão, marcou parte da sua vida. Mas ele lutou, deu a volta por cima, buscou ajuda e hoje dá apoio para quem passa pela mesma situação.

Natanael Victor, 30 anos, tatuador, músico, homem trans.

História:

Eu acabei saindo do armário 2 vezes: uma como lésbica e outra como homem trans, e agora eu estou descobrindo um novo mundo, porque as coisas acontecem do nada. Desde que eu me entendo por gente, eu me relaciono com mulheres, inclusive meu primeiro beijo foi com uma mulher. Mas depois de um tempo, eu iniciei a minha transição e comecei a me enxergar como um homem trans hétero, que se relaciona com mulher heterossexuais, até porque elas me veem como homem.

Então, essa transição começou socialmente com as pessoas que eu convivia e em seguida, iniciei o tratamento hormonal de pelo SUS, que veio de forma rápida e eficiente, fui muito privilegiado. A partir daí, retifiquei meus documentos e agora meu gênero é garantido pela lei como masculino, e isso pra mim foi um alívio.

Luta:

Morar em Cascavel para mim foi uma coisa inesperada. Na época, eu já não estava mais minha família, as coisas da minha casa tinham sido roubadas, meus materiais para tatuar também, e pra piorar minha namorada havia terminado comigo. No meio de tudo isso vinha a minha depressão, eu tentei me matar, mas falhei. E pra que isso não acontecesse de novo, eu resolvi me mudar pra Cascavel. Quem me indicou a cidade foi uma amiga, que eu conversava pela internet e que me ajudaria a arrumar um emprego.

Eu consegui um dinheiro, vim pra cá, mas quando eu cheguei, ela e sua companheira me receberam, mas foram embora e deixaram as minhas coisas jogadas na rua. Fiquei sem rumo. Morei nas ruas por 15 dias, passei frio, fome, foi algo muito pesado para mim. Até que eu conheci duas mulheres que trabalhavam no RH da Unioeste- Universidade Estadual do Oeste do Parana, que foram anjos em minha vida, porque se não fosse elas, eu não estaria aqui. Elas me indicaram o albergue da cidade, passei um dia nele e lá era muito tranquilo, fiquei em dormitório masculino, só para tomar banho, que eu esperava todos saírem e ia depois.

Durante a estadia, eu conheci um morador que era casado com uma mulher trans, ela vivia na República das Cores*, e a partir daí, conheci o Jeferson que me deu oportunidades para conhecer o lugar. Eu me interessei na hora, porque seria uma boa oportunidade, afinal eu sou tatuador, músico, compositor, quero refazer a minha vida.

| REPÚBLICA DAS CORES- CASA DE AUXÍLIO A PESSOAS LGBTQ EM CASCAVEL
WhatsApp clique:
(45) 99941–2125

Família:

Eu não tenho contato com a minha família há anos. Para ser exato, mais pra lá de uns 8 anos. Não temos uma relação de família. Quando eu me identificava como lésbica, as pessoas diziam que eu não gostava de homem porque eu ainda não tinha experimentado nenhum… aquilo ficava na minha cabeça, e aí com 21 anos, eu fui lá e transei com um amigo meu. Hoje em dia eu falo sobre isso numa boa, porque eu gosto de contar a minha história e o que eu posso dizer é: não vá pela cabeça dos outros, não é necessário. Enfim, foi só uma transa, mas eu engravidei. Tive uma filha linda, que hoje tem oito anos.

Nada disso foi uma experiência ruim para mim, porque eu não nunca teria cogitado em ter uma filha, e ela é uma maravilha para mim. Então agora enquanto homem, pretendo ser pai, mas eu não sou pai da minha filha, eu sou mãe dela, até porque ela tem um pai, por mais que eu seja um homem, eu sou mãe dela. Ela me chama de mãe e não podo isso dela, jamais faria isso.

Mateus Oliveira:

Mateus vive em contato com a música. É Dj. Toca na noite para deixar as pessoas mais felizes e conectadas, mas mesmo assim sente a desunião na comunidade da qual faz parte. Porém, não perde as esperanças, pois tem ao lado uma mãe que acredita nele mais que ele mesmo e amigos que o amam independente de tudo.

Mateus Oliveira, 23 anos, DJ — Homem trans

História:

Não sei afirmar se eu já sentia ser trans desde criança, pois me faltava muita informação. Acho que se eu tivesse todo meu conhecimento de hoje em dia sobre transgeneridade, com certeza teria me assumido mais cedo. Mas eu sempre tive um comportamento diferente das meninas que conviviam comigo.

Eu sempre fui mais masculino, me incomodavam algumas coisas femininas, e não por questão de padrões. Coisas como o meu antigo nome. Eu tive um ódio muito grande desde sempre, sem nenhum motivo aparente, eu só não gostava que me chamassem por ele.

Autoaceitação:

Eu me descobri trans em 2017. Lembro que na época, sem querer, descobri os vídeos de alguns youtubers trans e me identifiquei bastante, foi aí que eu comecei a pensar que pudesse ser meu caso. Mas eu não tive uma autoaceitação muito legal. Ao mesmo tempo em que eu pensava que poderia ser aquilo, eu não queria ser aquilo.

Foi uma rejeição interna muito grande. Passei alguns meses tendo algumas crises de identidade muito fortes, mas depois de um tempo, depois de conversar com algumas pessoas trans e ter consultas com uma psicóloga, eu consegui aceitar e me assumir.

Família e amigos:

Eu nunca fui tratado diferente depois de me assumir para minha família, tive uma aceitação boa vindo deles. Mas sei que já aconteceu de quando eu não estava perto, minha mãe chorar. Não por preconceito, por medo de como o mundo ia me tratar. Mas depois de conversas, ela entendeu. Eu a levei na ONG Acolher* onde ela aprendeu mais sobre. Hoje em dia ela até participa de alguns eventos. Me apoia em tudo, se precisar até briga por mim. É muito boa a sensação de poder ser você mesmo com a sua família, com seus amigos, com todo mundo.

| *ONG ACOLHER: ONG VOLTADA PARA ORIENTAÇÕES JURÍDICAS E ATENDIMENTO PSICOLÓGICO A HOMENS E MUHERES TRANS.
(45) 3040-0761 — WhatApp clique: (45)9 9839–8082

É um sentimento que eu desejo pra todo mundo. Eu sei que não é fácil, nem todos tem a realidade que eu tive, mas eu quero que possam sentir isso. A aceitação por parte dos meus amigos foi incrível. Todos os mais próximos, me apoiaram muito. Me abraçaram quando eu me assumi.

Cascavel:

Eu não frequento muitos lugares na cidade, mas o que eu observo é que independente do público do lugar, LGBT ou não, se você não fizer parte daquele meio de alguma forma relevante, você é invisível ou motivo de chacota sem ter feito nada. Todos os lugares deviam mudar isso, não os lugares, mas as pessoas. Tanto no meio hétero quanto no LGBT. Não tem com você se senhor acolhido se você é insignificante naquele contexto.

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